sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Agitação de Natal


Todo Natal era assim: dava meia noite e os presentes eram abertos. A avó chamava um por um para receber os tão sonhados objetos de desejo. Papéis espalhados por todos os lados; impaciência na hora de abrir; gritos de "eeeeeeeeeeeeeeeee! era isso que eu queria" etc. Mas aí, depois de abertos e desvendados, ficava uma saudade daquele mistério que era mantido durante quase um mês. Sem falar dos preparativos, das conversas na cozinha, das rabanadas fritando, dos primos brigando... Era muita energia boa que circulava naquela casa.

A matriarca, uma senhora de 70 e poucos anos, comandava tudo, desde a arrumação, passando pelo menu, a compra das cervejas, o que os netos iriam ganhar e tudo mais que significasse fazer com que aquela família pudesse ter momentos mágicos ao lado dela. E, realmente, eram! Ao mesmo tempo em que os primos brigavam e se amavam, as mulheres ficavam preparando o peru, fazendo a farofa, cozinhando as castanhas, e o som, ah o som! Nas alturas! Aquele fervor era contagiante!

A noite chegava e todos, arrumados e perfumados, se preparavam para jantar. As crianças contavam os minutos, pois só se podia comer e, principalmente, abrir os presentes, quando desse meia noite. A essa altura, o primo já sabia o que todos iriam ganhar, pois tinha aberto os pacotes dias antes, nas madrugadas em que ficava jogando vídeo game. Mesmo assim, a surpresa e a alegria eram sempre as mesmas.

- Você vai ganhar uma agenda!

- E você, Ana, uma boneca!

- E você, Bruno?

- Um outro vídeo game . Vou vender o antigo para comprar mais fitas.

Durante a ceia:

- Feliz Natal!!! – Dizia a matriarca a cada um dos convidados. Venha jantar. Está tudo uma delícia. Mas, caso não esteja, sinto muito, você vai comer assim mesmo.

- Hahahaha!!! - Riam todos. - Era impossível dizer que não estava bom. Tudo era feito com muito amor e capricho. E, se não estivesse, seria um erro gravíssimo comentar, pois ninguém queria magoar a matriarca da família.

Hoje, esta personagem não faz mais peru, nem obriga os filhos, netos e noras a comer. O barulho do som, as crianças correndo e as gargalhadas na cozinha são momentos que ficarão para sempre na memória dos que ainda terão muitas rabanadas para fritar. Feliz Natal!

As fotos postadas aqui são da minha amiga Rossana Henriques, excelente fotógrafa. Se quiserem conhecer o trabalho dela, basta acessar http://www.flickr.com/photos/rossana_henriques

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Proposta irrecusável


- Você também gosta da Madonna, Angélica?
- Ah, eu adoro! Tenho várias fotos, matérias, pôsteres. O meu álbum é completo!
- Duvido! - Desafia Patrícia. - Você tem reportagens e fotos sobre ela de outros países?
- Hum...Não. Por quê? - Perguntou Angélica cheia de curiosidade e com um pouquinho de inveja. - Tudo que eu compro é daqui mesmo.
- Haha. Pois eu tenho váriaaaaaaas fotos, revistas e matérias com ela. Tudo importado.
- Sei. Você pode trazer? Trarei o meu álbum.
- Combinado.

Que conversinha!! Angélica tentava mostrar que era, naquele colégio, a maior fã da Madonna. E Patrícia se gabava por ter uma pilha de papel de outros países. Não custava dar uma olhadinha, afinal, estavam falando da Madonna.

“Don't go for second best baby
Put your love to the test
You know, you know, you've got to
Make him express how he feels
And maybe then you'll know your love is real”

No outro dia:

- Uau, que fotos maneiras!!! Não tenho nenhuma dessas no meu álbum.
- Não te disse? Tenho um tio que compra essas revistas pra mim.
- Sei. E você não quer trocá-las?? - Falou Angélica naquele tom peculiar de quem estava se preparando para dar o bote.
- Trocar? De jeito nenhum. Valem muito.
- Tem certeza? Eu tenho uma coisa que também vale muito. Podemos negociar.
- O que é?? - Perguntou Patrícia com certo interesse.

De repente, Angélica abre a mochila e tira uma blusa EXCLUSIVA da MTV. Naquela época, MTV era (e ainda é) tudooooooooo de bom, a juventude estava se acostumando com a Astrid no Disc MTV e com os clips do MC Hammer (U Can't Touch This) e do Guns N' Roses (Patience).

- Caraca! Como você descolou essa camisa??
- Pois é! - Disse Angélica cheia de malícia. - Infelizmente, só tem essa. É que o meu pai trabalha com publicidade e acaba ganhando esses brindes exclusivos. Você não vai ver essa blusa com mais ninguém por aí.
- Putz! Tenho que pensar, mas tô quase fechando com você. Vou tirar aquela onda!
- Ah, com certeza! Basta que troquemos a minha blusa por todas essas revistas.

Não demorou nada até que Patrícia decidisse fazer a tão sonhada troca. Angélica, por sinal, estava cada vez mais ansiosa, mas não podia demonstrar, pois correria o risco de perder o negócio.

- Ok, Angélica. Aqui estão as minhas fotos e tudo que tenho da Madonna. Cadê a blusa?
- Aqui está! Fez um ótimo negócio, Patrícia. Você não vai se arrepender, comemorou Angélica, tratando de pegar logo aquelas preciosas publicações para arrumar no álbum.

Todas felizes, cada uma com o seu prêmio. Porém, um detalhe passou despercebido por Patrícia: a camisa era linda? Ok. Era da MTV? Ok. Era exclusiva? Ok. Sim sim. Tentem imaginar como era a peça: fundo branco, logomarca gigante da MTV no meio e, no fundo, vários "1998" prateados. Para Angélica, a camisa tinha validade apenas de um ano. Por isso, a idéia da troca tinha sido genial. Foi um detalhe que Angélica não quis comentar, claro, para não "atrapalhar" as negociações com a Patrícia.

Maldade? Esperteza? A única coisa que deverá ser dita para encerrar esta estória é que, como diz o ditado, "o castigo tarda, mas não falha”. Depois de um tempo, Angélica, toda metida, emprestou o seu álbum da Madonna, cada vez mais completo, para uma prima. Você já viu esse álbum? Nem Angélica, pois até hoje ele não voltou. Que fim será que levou?? Tanto esforço pra nada. Será que Patrícia tem a blusa até hoje?

"Open your heart to me, baby
I hold the lock and you hold the key
Open your heart to me, darlin'
I'll give you love if you, you turn the key"

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Ele virá?


- Mãe, podemos fazer uma festa no meu aniversário?
- Claro, querida! O que você quer?
- Quero um jantar maravilhoso, com direito a nhoque da vovó. Será que ela faz?
- Bom, filha, sua avó quase não faz mais nhoque. Tem preguiça.
- Mas eu quero! O dela é o melhor!

E assim, a menina planejou cuidadosamente o seu aniversário de 17 anos. Tudo tinha que estar perfeito: o vestido, nem se fala! Já tinha comprado! Foi difícil convencer os pais, pois o modelo era extravagante, digamos. Mas era assim que ela gostava de se vestir. Toda a agitação tinha um objetivo: convidar a sua grande paixão. Porém, eles estavam brigados. Qual foi mesmo o motivo? Ah, sei lá...eles brigavam tanto e, mesmo sem ter nada com o cara, tudo era pra ele, tudo tinha que estar impecável. O dia chegou e a avó, sim, ela fez o nhoque. A festa ia muito bem, os pais estavam calmos, os convidados chegando, a música rolando, e cadê o cara?? A menina tratou também de chamar os seus "auxiliares", aqueles carinhas convidados apenas para fazer ciúme no príncipe encantado. E por falar nele: cadê? Quando nada mais interessava a não ser dar um jeito de uma amiga sair do colo do namorado ("onde já se viu mulher sentar no colo do namorado, em casa de família, minha filha? vai lá é ajeita isso", disse abalada a avó paterna), eis que aquela figura aparece, lindo com a sua blusa florida (???). A menina não se conteve e foi recebê-lo, ganhou "parabéns" e dois modestos beijinhos no rosto. Surpresa maior ainda foi ao abrir o presente: o item nem precisa ser revelado, mas mostrou total despreparo do rapaz, pois ficou óbvio que outra pessoa havia comprado. Mesmo assim, a menina guardou essa embalagem para todo o sempre. Flashes aqui, flashes ali, e nada do menino mostrar interesse. Todos, sem exceção, quer dizer, tirando os pais, sabiam dessa paixão. O menino mais ainda e fazia questão de mostrar que sabia, mas que não estava interessado.

- Obrigada pela presença! Já pegou o seu bolo?
- Adorei a festa! O nhoque estava muito bom!
- Gostou do presente?
- Amei! Obrigada pela lembrança!

Fim de festa. Pratos e copos espalhados, restos de nhoque e de bolo, presentes, e um livro lido durante a festa (Confissões de Adolescente). Objetivo alcançado? Que nada! A menina, no dia do seu aniversário, sentou e chorou por alguém que não a merecia. Se soubesse que terminaria assim, teria ficado com o nhoque todo só pra ela.

O nascimento do blog



ICQ, MSN, Orkut etc. Afe! Com tantos recursos, esqueci completamente dos pequenos prazeres, como escrever e receber uma carta. E quando me pego nestes momentos de nostalgia, a primeira coisa que faço é "desenterrar" a minha caixa de sapatos especial. Nela, guardo mil coisinhas. Tem de tudo: papel de bala, desenhos da minha irmã (tenho uns 497 milhões!), bilhetes dos meus pais, fotos, cartas, muitas cartas, além, claro, dos meus diários. Nem sei se este hábito ainda existe, porém, eu andava com os meus pra cima e pra baixo, escrevendo sobre cada cena vivida, emoções, amor, ódio, e tudo mais. Bom, abri a tal caixa especial e, depois de anos, comecei a reler os diários. Incrível como a mulher é criativa! Incrível como há material riquíssimo para milhares de contos, poesias, letras de músicas e qualquer outra manifestação artística. Separei algumas destas passagens e vou transformá-las em outras estórias. O enredo será o mesmo; os nomes serão trocados; e a visão será a de uma mulher mais madura, lendo o diário de uma menina de 16 anos. Aproveito para convidá-los a contribuir: todos nós temos fatos que mereçam uma releitura. Por isso, fiquem à vontade para me enviar ou para comentar sobre quaisquer outros assuntos.