
Todo Natal era assim: dava meia noite e os presentes eram abertos. A avó chamava um por um para receber os tão sonhados objetos de desejo. Papéis espalhados por todos os lados; impaciência na hora de abrir; gritos de "eeeeeeeeeeeeeeeee! era isso que eu queria" etc. Mas aí, depois de abertos e desvendados, ficava uma saudade daquele mistério que era mantido durante quase um mês. Sem falar dos preparativos, das conversas na cozinha, das rabanadas fritando, dos primos brigando... Era muita energia boa que circulava naquela casa.
A matriarca, uma senhora de 70 e poucos anos, comandava tudo, desde a arrumação, passando pelo menu, a compra das cervejas, o que os netos iriam ganhar e tudo mais que significasse fazer com que aquela família pudesse ter momentos mágicos ao lado dela. E, realmente, eram! Ao mesmo tempo em que os primos brigavam e se amavam, as mulheres ficavam preparando o peru, fazendo a farofa, cozinhando as castanhas, e o som, ah o som! Nas alturas! Aquele fervor era contagiante!
A noite chegava e todos, arrumados e perfumados, se preparavam para jantar. As crianças contavam os minutos, pois só se podia comer e, principalmente, abrir os presentes, quando desse meia noite. A essa altura, o primo já sabia o que todos iriam ganhar, pois tinha aberto os pacotes dias antes, nas madrugadas em que ficava jogando vídeo game. Mesmo assim, a surpresa e a alegria eram sempre as mesmas.
- Você vai ganhar uma agenda!
- E você, Ana, uma boneca!
- E você, Bruno?
- Um outro vídeo game . Vou vender o antigo para comprar mais fitas.
Durante a ceia:
- Feliz Natal!!! – Dizia a matriarca a cada um dos convidados. Venha jantar. Está tudo uma delícia. Mas, caso não esteja, sinto muito, você vai comer assim mesmo.
- Hahahaha!!! - Riam todos. - Era impossível dizer que não estava bom. Tudo era feito com muito amor e capricho. E, se não estivesse, seria um erro gravíssimo comentar, pois ninguém queria magoar a matriarca da família.
Hoje, esta personagem não faz mais peru, nem obriga os filhos, netos e noras a comer. O barulho do som, as crianças correndo e as gargalhadas na cozinha são momentos que ficarão para sempre na memória dos que ainda terão muitas rabanadas para fritar. Feliz Natal!



